A FALÁCIA VERDE E AMARELA

Paulo Malerba

Algumas questões relevantes apareceram em cena após as manifestações ocorridas neste mês de março. No dia 13, centrais sindicais, movimentos sociais e integrantes de partidos de esquerda saíram às ruas em defesa dos direitos trabalhistas, da democracia, da Petrobras e da Reforma Política. Dois dias depois, diversos segmentos se mobilizaram, a partir das redes sociais, do apoio midiático e dos partidos de oposição ao governo federal, numa pauta que envolvia principalmente a crítica ao governo Dilma. Dentre os aspectos mais destacados por participantes do dia 15 estava, por um lado, a defesa de que essa mobilização se baseava nas cores da bandeira nacional e, por outro, a crítica à manifestação do dia 13 pelo uso das cores da esquerda, do vermelho, das bandeiras dos partidos e dos movimentos sociais. Como esse tipo de abordagem começou a se propagar e mesmo confundir algumas pessoas, apresento neste breve texto meu posicionamento sobre o assunto.

Interessante observar como tais argumentos reaparecem, muitas vezes, como uma espécie de confronto com algum perigo “vermelho” que estaria do outro lado. Quem acompanhou, lembra-se de discursos inflamados de Fernando Collor em 1989 nos quais ele dizia que era hora “de dar um não definitivo à bagunça, à baderna, ao caos, à bandeira vermelha, e dar um sim à nossa bandeira, do Brasil, a bandeira verde, amarela, azul e branca”. Uma prática usual de vincular os símbolos da pátria e as suas cores a um discurso político, como se isso garantisse uma superioridade moral. Falácia. Indo um pouco mais além, Adolph Hitler adotara o mesmo mecanismo: os símbolos nacionais, a tradição e a história germânica passaram a ser vinculadas ao governo nazista. Era regra, por exemplo, ao término de um discurso, tocar o hino nacional alemão – como nos famosos discursos do “triunfo da vontade” de Hitler ou da “guerra total” de Goebbels. Aliás, o terceiro Reich remetia à terceira unificação dos povos germânicos, absorvendo, claramente, a história do povo aos seus interesses políticos, levando a Alemanha e a Europa ao holocausto e à destruição. Trata-se, portanto, de um evidente mecanismo da direita política, que também foi utilizado nas ditaduras da América Latina, como o “ame-o ou deixo-o” vigente na ditadura militar brasileira.

Isso não significa dizer que todos que foram às ruas dia 15 acreditavam nesta forma de enxergar a política e o uso dos símbolos nacionais. Porém muitos reproduziram este pensamento. Não há nada demais em usar as cores do Brasil, todos nós podemos usá-las, sabendo que isso não traz nenhuma qualidade intrínseca a quem as usa. Colocar a camisa da seleção, por exemplo, não torna uma pessoa mais defensora do país que outra. Acreditar que pensamentos e reivindicações são mais patrióticos por carregar a bandeira nacional e, ao mesmo tempo, imaginar que alguém que reivindique uma pauta e não esteja com as cores nacionais não seja a favor do país é algo pueril. A bandeira vermelha está historicamente ligada à esquerda política, remete à luta contra a desigualdade social e por mais direitos sociais, e é usada, no Brasil, na Europa, nos Estados Unidos, na Ásia, em todo o mundo, por partidos e movimentos de esquerda, com uma pauta relativamente clara.

A presença de bandeiras partidárias, de sindicatos, de movimentos, não desqualifica nenhuma manifestação: pelo contrário, torna-a autêntica, mostra os interesses que ali estão sendo defendidos. Toda manifestação defende suas pautas, tornando-se inconcebível imaginar que alguma mobilização seria do “interesse comum de todo o povo”, levando em conta que a sociedade é bastante heterogênea e mesmo contraditória. A ausência das bandeiras de movimentos não implica que a manifestação, qualquer que seja, seja isenta de ideologia. Ao contrário, diferentes ideologias estão presentes – algumas vezes, quase escondidas; algumas outras, escancaradamente abertas, como pudemos observar nas vozes e nos cartazes do dia 15 que pediam golpe e intervenção militar.

A sociedade é o espaço no qual as disputas de interesses ocorrem, não existe consenso dos rumos a serem tomados, para isso serve a democracia – dentro de um processo de escolha – definir os caminhos. Para quem defende certas pautas, estas podem ser vistas como melhores para o país; porém, sob determinada perspectiva, elas certamente entrarão em conflito com outras – também consideradas as melhores por quem as defende. Para mim, a pauta fundamental para o Brasil é aquela que tem como objetivo o povo, a igualdade, a justiça e os direitos, usando os meios democráticos para alcançá-la. Que não usa subterfúgios e sabe que a estrutura política precisa de reforma por inteiro, que não existem saídas fáceis. A minha pauta é a do dia 13.

 

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