Sobre “doutrinação” ideológica

Neste ano de 2018, falou-se muito em doutrinação, principalmente por parte de apoiadores da direita. Segundo eles, haveria um “conluio marxista” nas universidades com o objetivo de defender ideias e pautas da esquerda.

O que acontece é bem diferente disso. A ideologia que prevalece nas universidades e faculdades brasileiras é a do mercado. Os estudantes são formados e moldados de acordo com as chamadas “necessidades do mercado”, e dois grandes pilares sustentam esse aprendizado: a ideologia do empreendedorismo e a dita e repetida meritocracia.

Esses são os fundamentos principais das universidades brasileiras, públicas e privadas. Institutos onde se discute a produção teórica marxista ou o pensamento crítico de forma geral são residuais, muito minoritários e concentrados em poucos campi de humanas, que também se dedicam a estudar diversas outras linhas de pensamento.

Na ampla maioria dos cursos, defendem-se abertamente os interesses e as virtudes do mercado. De forma dogmática, sem crítica, sem reflexão e que, ao final, deixa milhões de jovens frustrados ao lidar com uma realidade diferente dos « benefícios » da sociedade de consumo: nem sempre o merecimento e o trabalho são valorizados como pensavam, riqueza e trabalho na maioria das vezes andam separados. O desemprego e a subocupação são mais que fantasmas do cotidiano, são realidades a serem enfrentadas.

Segundo esse discurso, todos os problemas seriam resolvidos pela liberdade econômica, pelo empenho de cada um, pela busca do lucro e da maximização dos resultados individuais.

Na realidade, os jovens encontram um mercado de trabalho desestruturado, muitos na informalidade, sem oportunidades, forçados a serem “empreendedores”, patrões de si próprios, com empresas individuais e superexploração.

Muitos se culpam, estigmatizam a si e aos outros, adoecem. A maioria não foi estimulada a pensar na estrutura da sociedade, nas suas contradições, nas suas injustiças. O pensamento ensinado em grande parte das faculdades e universidades é linear, maniqueísta, individualista e o mercado é colocado acima das pessoas e das possibilidades de se ter o mínimo de justiça social e correção das distorções econômicas, cada vez mais evidentes quanto mais se adotam a liberalização e a desregulamentação, como nos ensina a última grande crise mundial, em 2008.

Como esse discurso do empreendedorismo e do mérito é repetido à exaustão, ele acaba naturalizado, como se fosse uma determinação biológica e não resultado das relações humanas e, sobretudo, das relações de poder, de modo que não é visto como dogmático ou doutrinário. Ao contrário, quem pensa diferente e critica esse suposto consenso é acusado pela corrente majoritária e por seus grandes defensores, que ganham poder e dinheiro com isso, como os doutrinados e doutrinadores.

Se quer se falar em doutrinação, deve-se mencionar que ela tem o sentido contrário daquele que denunciam. Ela é da direita. Para notar isso, basta uma breve pesquisa nas faculdades, nos discursos e nos métodos, que se percebe a ampla prevalência desses ideais individualistas e mercadológicos, construídos sob medida para manter o status de quem comanda a sociedade: os donos do dinheiro.

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