Bolsonaro quer que seus apoiadores invadam hospitais

Por Paulo Malerba

Como se a situação não fosse grave o suficiente, e com tendência de piorar, o presidente estimula, por meio de uma live, que as pessoas invadam hospitais para filmar leitos e “fazer provas” para a Polícia Federal. A lógica que Bolsonaro defende, desde o início da pandemia, é que existe uma histeria e o quadro da Covid-19 no Brasil não é tão grave. Dessa maneira, portanto, os leitos não estariam lotados e muito do esforço realizado por governadores e prefeitos, como a construção de hospitais de campanha, teria dois objetivos: desviar dinheiro público e criar uma situação de pânico e letargia para prejudicar o governo federal.

De acordo com esse pensamento de Bolsonaro, a consequência seria afirmar que milhares de profissionais de saúde estão comprometidos em uma conspiração, com propósito de maquiar a gravidade da doença e ocultar a real ocupação de leitos, apenas para levar a cabo o plano de governadores e prefeitos de desviar dinheiro e de prejudicar o presidente da república. Para desvendar esse plano arquitetado na surdina, à moda do que gosta Olavo de Carvalho – para quem não sabe, suas teorias normalmente sugerem uma armação de grandes forças ocultas às quais ele habitualmente revela aos seus seguidores -, Bolsonaro incentiva que seus apoiadores, muitos dos quais reconhecidamente imoderados, entrem em hospitais, com todos os riscos envolvidos, e mesmo sem autorização, para conseguir “provas”, realizar registros de unidades que estariam tranquilas e com leitos vazios.

Não seria algo inédito, em vista de que certos deputados estaduais de São Paulo se prestaram a esse papel, quando invadiram o hospital de campanha da prefeitura, no Anhembi, para realizar vídeos sensacionalistas e mostrar leitos desmontados ou vazios. A explicação de profissionais da saúde, de que o hospital era de retaguarda e estava preparado para possível aumento de demanda, que os levaria a montar novos leitos, não serviu para os deputados. Bolsonaro certamente assistiu e gostou da ideia.

A fiscalização do dinheiro público deve ser constante. Ela não apenas pode, como deve ser feita. Não é improvável que determinados gestores públicos tenham se utilizado da crise para cometer crimes e desviar recursos, e não seria a primeira vez que o fato aconteceria no Brasil. No entanto, há mecanismos para se fiscalizar, investigar e punir. Não vale tudo. Não é razoável sugerir que a crise da saúde pública causada pela pandemia não exista. Nem tampouco é válido desrespeitar profissionais da saúde, doentes, vítimas fatais e seus familiares. É algo, do mesmo modo, criminoso. Bolsonaro além de não ajudar a enfrentar a pandemia, causa sempre novos transtornos. Pouco lhe importa se o Brasil tem, em 90 dias do coronavírus, 41 mil mortos e mais de 800 mil infectados. O seu propósito é desinformar, confundir e tentar reinar no caos. Enquanto, no mundo real da saúde busca-se salvar vidas e conter a pandemia, no mundo de Bolsonaro o importante é seu projeto de poder autoritário.

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