Bia Dória e o preconceito elitista

Por Paulo Malerba

A senhora Bia Dória, casada com o governador de São Paulo, João Dória, e que ocupa a presidência do fundo social estadual, disse que não é certo as pessoas doarem comida e roupas a moradores em situação de rua, porque, com essas doações, eles se sentirão estimulados a continuar nas ruas, afinal, segundo ela, trata-se de um lugar “atrativo” e que “eles gostam”. As palavras de Bia Dória não chegam a causar surpresa para quem conhece um pouco do pensamento da elite paulista. Demonstram como parte significativa da elite compreende a situação de miséria de muitas pessoas.

Cabe ressaltar que a existência de fundos sociais comandados por “primeiras-damas” é algo caricato, reproduzido por governos de direita e de esquerda. A lógica dos fundos sociais é, supostamente, a caridade, não há política pública e um sistema normativo e técnico como na área de assistência social, razão pela qual ambas não se confundem. O uso do papel de “primeira-dama” nos dias de hoje vai contra significantes avanços dos movimentos feministas, que questionam falsos espaços de representatividade e recusam um lugar meramente decorativo. Na prática, não é uma área relevante dos governos, cuida apenas de gerir doações e realizar cursos gratuitos.

Ainda assim, Bia Dória não utiliza nem o verniz da caridade. De dentro do palácio do governo, reproduz uma visão elitista. As causas das pessoas morarem na rua são diversas, complexas. Pode ser miséria, separação da família, migração de outra região, dependência de drogas, dependência de álcool, doenças mentais, ou mesmo morar longe do trabalho e evitar, em alguns dias, os custos do transporte. A rua é lugar de dor, de sofrimento, mas também de solidariedade. As entranhas humanas estão escancaradas nessa situação, em que se morre de frio, num país tropical, morre-se por violência de grupos de extermínios, de outros moradores, de criminosos. Resumir tudo ao “atrativo” e que “se gosta” é muito limitador e preconceituoso. Estimular que se negue comida e roupa é atitude nefasta.

Faltam centros de acolhimento, como também falta tratamento de saúde, medicação, vestimenta, e sobretudo, humanidade e respeito ao lidar com as pessoas que moram nas ruas, inclusive, esses problemas se repetem em muitos dos abrigos aos moradores de rua. Para ocupar uma função pública e emitir uma opinião sobre o tema, no mínimo é necessário conhecer a realidade, reconhecer o quanto o poder público é omisso, negligente e violento com essas pessoas. O pensamento explícito de Bia Dória é loquaz quanto à violência de seu marido como prefeito e governador, que manda recolher cobertores dos moradores de rua e lhes dava jato de água para acordarem de manhã. Por esse motivo não surpreende, mas renova a repugnância com esses pensamentos e atitudes.

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